Por Dr. Carlos Motta

 Se você é um homem e apresentar dor na bolsa escrotal ou testículo, isso pode ser a consequência de epididimite, orquite ou ambas. A informação a seguir tem por objetivo fornecer informações básicas sobre o tema para auxiliar o paciente a discutir com o urologista.

O que são orquite, epididimite e orqui-epididimite?

A epididimite é a inflamação do epidídimo – o tubo sinuoso que coleta os espermatozoides do testículo e os transporta aos ductos deferentes. Há duas formas desta doença: aguda e crônica. A epididimite aguda surge repentinamente com sintomas intensos e regride com o tratamento. Já a forma crônica é uma doença com duração prolongada, geralmente de início gradual, cujos sintomas podem melhorar com o tratamento, mas também podem não ser completamente erradicados. A maior parte dos pacientes com epididimite são adultos.

A orquite é a inflamação dos testículos. Ela quase sempre tem início súbito e melhora com o tratamento. A orquite crônica não é uma doença bem definida e, ao contrário, é considerada uma das manifestações da dor testicular crônica (orquialgia).

A orqui-epididimite é a inflamação abrupta tanto do epidídimo quanto do testículo.

 

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Quais são as causas dessas doenças?

A epididimite aguda geralmente é causada por uma infecção bacteriana. Em crianças que ainda não atingiram a puberdade, a infecção geralmente começa na bexiga ou no rim e, então, se estende ao testículo. Isso geralmente se associa com uma doença congênita que predispõe às infecções do trato urinário. Em homens sexualmente ativos, a infecção que geralmente leva a epididimite é uma doença sexualmente transmissível, como a gonorreia ou a clamídia. Essas infecções começam na uretra, onde causam uma uretrite, e depois podem atingir o testículo. Em homens com mais de 40 anos, a causa mais comum são as bactérias do trato urinário. Outras causas podem incluir: obstrução do fluxo urinário por aumento do volume prostático ou estenose da uretra, prostatite bacteriana, cateterismo vesical recente. Em qualquer um desses casos, a infecção original pode não causar sintomas e a epididimite pode ser o primeiro sinal de que alguma coisa está errada. Raramente, a epididimite pode ocorrer quando uma infecção bacteriana atinge o epidídimo através da corrente sanguínea, apesar desta ser a forma que a tuberculose costuma envolver o epidídimo. Às vezes a epididimite pode não ser o resultado de uma infecção. A epididimite química ocorre quando a urina flui da uretra para o epidídimo, o que pode acontecer com levantamento de peso ou esforço excessivo. A urina vai levar à inflamação sem infecção. A amiodarona (um remédio para tratar arritmia cardíaca) também pode causar uma epididimite não infecciosa, além de outras causas ainda desconhecidas de epididimite.

A epididimite crônica pode se desenvolver após múltiplos episódios de epididimite aguda que apresentaram remissão completa, mas também pode ocorrer sem nenhum episódio sintomático de epididimite aguda ou infecção prévia – nestes casos a causa é desconhecida.

Na maioria dos casos de orquite aguda, o testículo se inflama pela disseminação de uma infecção bacteriana do epidídimo, desta forma, o termo correto seria orqui-epididimite. Apesar de ser possível uma orquite bacteriana sem epididimite, a orquite sem epididimite geralmente é o resultado de uma infecção viral (principalmente pelo vírus da caxumba). A orquite pela caxumba ocorre em cerca de um terço dos homens que contraem caxumba após a puberdade.

A orqui-epididimite aguda é frequentemente uma infecção bacteriana ou, raramente, uma tuberculose do epidídimo que se espalhou para o testículo. A orquite pela caxumba não se dissemina para o epidídimo.

Quais são os sintomas e como é feito o diagnóstico?

Epididimite e orqui-epididimite agudas: apresentam sintomas não apenas nos testículos e epidídimos, mas também no local da infecção original. Os sintomas da infecção original podem incluir: descarga uretral (saída de secreção pela uretra sem relação com o ato de urinar) e dor ou coceira na uretra (por uretrite); dor pélvica, urgência para urinar, frequência urinária aumentada, dor ou ardência ao urinar (por infecção na bexiga, denominada cistite); febre, dor perineal, frequência urinária aumentada, urgência para urinar, dor ou ardência ao urinar (por infecção na próstata, denominada prostatite); febre e dor lombar (por infecção nos rins, denominada pielonefrite). Em alguns casos, dor escrotal pela infecção local é o único sintoma perceptível. A dor começa na parte posterior do testículo, podendo atingir prontamente toda a bolsa escrotal e, algumas vezes, a virilha. Dor, inchaço, vermelhidão, consistência endurecida e aumento da temperatura local também podem acompanhar a dor. A bolsa escrotal pode aumentar de tamanho por se encher de líquido (o que se chama hidrocele). Para fazer o diagnóstico, o médico vai fazer perguntas (a anamnese) e vai realizar um exame físico. Pode ser solicitado um exame de urina ou um swab da uretra. Se a dor teve início muito súbito e intenso, pode ser necessário fazer uma ultrassonografia, para diferenciar a epididimite de outra doença denominada torção testicular. Como a torção testicular tem tratamento muito diferente da epididimite, é importante fazer o diagnóstico correto.

Epididimite crônica: A dor se apresenta apenas no interior da bolsa escrotal, sendo menos intensa e mais localizada que a forma aguda. Inchaço, dor, vermelhidão e aumento da temperatura da pele escrotal não estão presentes. Exames adicionais podem ser úteis como na epididimite aguda, mas eles são solicitados com menos frequência. Na epididimite aguda a urina está frequentemente infectada, já na forma crônica isso geralmente não acontece.

Orquite aguda: Na fase aguda da orquite por caxumba os sintomas são dor de intensidade variável e inchaço. A parotidite (inchaço das glândulas faciais) precede a orquite de 3 a 7 dias. A orquite isolada da infecção bacteriana tem os mesmos sintomas epididimite ou orqui-epididimite agudas.

Quais são as opções de tratamento?

Epididimite e orqui-epididimite agudas: O tratamento nos casos em que suspeita que a causa seja uma infecção bacteriana (que são a maioria) consiste em antibióticos por cerca de duas semanas. A maioria dos casos pode ser tratada com antibióticos por via oral. O médico um dentre vários antibióticos. A epididimite pela tuberculose é tratada com remédios antituberculose, apesar da remoção cirúrgica do testículo e do epidídimo (orquiectomia) ser necessária em muitos casos, pois os danos ao testículo geralmente são graves. Os casos mais graves de infecção bacteriana, com dor de difícil controle, vômitos, febre alta ou comprometimento importante do estado geral, podem necessitar de internação hospitalar. Com a exceção da epididimite por amiodarona, na qual se reduz a dose ou se suspende a droga, não há tratamento específico para a amiodarona não infeciosa. Medidas gerais para a epididimite incluem repouso por um ou dois dias com elevação da bolsa escrotal. O objetivo é elevar o epidídimo inflamado acima do nível do coração. Isso melhora a drenagem sanguínea do testículo, o que acelera a melhora dos sintomas, especialmente da dor e do inchaço. A aplicação intermitente de gelo também pode ser útil e, nos casos infecciosos, é aconselhável ingerir líquidos em abundância. Anti-inflamatórios não esteroides são úteis, uma vez que eles não apenas aliviam a dor, como também reduzem a inflamação que causa a dor.

Epididimite crônica: O tratamento tem por objetivo primordial reduzir o desconforto. Anti-inflamatórios não esteroides e aplicação local de calor são as medidas principais. Se os sintomas persistirem, o médico pode recomendar outros remédios que alteram a percepção de dor na região, ou pode te encaminhar a um especialista em dor. Se tudo mais falhar, pode-se proceder a remoção cirúrgica do epidídimo (epididimectomia) mantendo-se o testículo.

Orquite aguda: Não há tratamento específico para a orquite por caxumba. Nos casos de infecção bacteriana, o tratamento é igual ao da epididimite aguda.

O que pode se esperar após o tratamento?

Epididimite e orqui-epididimite agudas: nos casos infeciosos tipicamente leva-se de dois a três dias para que se possa notar melhora dos sintomas. Se a vermelhidão não regredir e o paciente não se sentir melhor após esse período, deve-se entrar em contato com o médico. A resolução do quadro leva mais tempo. O desconforto pode persistir até que se complete todo o curso de antibióticos e o inchaço e a consistência endurecida podem levar meses até o retorno ao estado anterior. O repouso no leito com elevação escrotal nos primeiros dois dias vão acelerar a recuperação. Você deve retornar ao seu médico após o tratamento. Nos casos de epididimite por tuberculose que não necessitam de orquiectomia, é necessário tomar remédios por vários meses, e provavelmente haverá redução do volume do testículo. A epididimite por amiodarona melhora após a redução da dose ou suspensão da droga, sem deixar sequelas. A epididimite química também costuma ter resolução completa.

Epididimite crônica: O tratamento é contínuo e não é curativo. Pode ser necessário tomar remédios por anos, ou até que os sintomas se resolvam espontaneamente. Se for realizada a epididimectomia, o alívio dos sintomas ocorre em três dentre quatro pacientes, após algumas semanas. Se a cirurgia não foi suficiente para controlar seus sintomas, então o médico pode tentar novamente o tratamento com remédios.

Orquite aguda: Após a fase aguda da orquite por caxumba, há resolução da dor, mas frequentemente há progressão para atrofia testicular.

Perguntas Frequentes:

E se a dor e o inchaço não melhorarem após os primeiros três dias de tratamento com antibióticos?

A maioria dos casos de orqui-epididimite ou epididimite agudas é tratada eficientemente com antibióticos. Em alguns casos, contudo, é necessário utilizar um antibiótico diferente. A epididimite por tuberculose também deve ser considerada quando os sintomas não se resolvem apropriadamente. Ocasionalmente, é necessário tratamento com cirurgia. Se um abscesso (uma coleção de pus) se formar, apenas antibióticos quase nunca são suficientes e uma cirurgia para drenar o abscesso ou remover uma parte ou todo o epidídimo e o testículo pode ser necessária. Outras complicações que podem necessitar de uma cirurgia incluem infarto testicular (morte do testículo por destruição de seus vasos sanguíneos) e fístula cutânea (quando a infecção continua a drenar pela pele).

É possível transmitir a infecção para a minha parceira sexual?

Se a epididimite ou orqui-epididimite aguda for causada por uma doença sexualmente transmissível (o que geralmente ocorre em homens sexualmente ativos com menos de 40 anos de idade), então a parceira sexual também necessita ser tratada, uma vez que a infecção pode ser transmitida nos dois sentidos pelo contato sexual. As bactérias do trato urinário que causam os outros casos de epididimite não são transmitidas sexualmente. Nestes casos não é necessário tratar a parceira e não há risco de infectá-la.

A possibilidade de ter filhos será prejudicada?

A atrofia associada às orquites por caxumba ou por tuberculose pode cursar com redução da produção de espermatozoides pelo testículo em questão. Após um episódio de epididimite aguda, pode haver obstrução do epidídimo (o que é raro), o que vai reduzir a saída de espermatozoides do testículo e, consequentemente, também haverá redução da capacidade deste testículo fornecer espermatozoides para serem ejaculados na relação sexual. De qualquer forma, se o outro testículo for saudável, a maioria dos homens poderá ter filhos normalmente.

A produção de hormônio pelo testículo será afetada?

Alguns homens com orquite por caxumba ou por tuberculose que evoluem com atrofia testicular perdem a habilidade de produzir hormônio naquele testículo. A rara obstrução do epidídimo que pode acontecer após a epididimite ou orqui-epididimite agudas não altera a produção hormonal.

As infecções do testículo ou do epidídimo podem levar ao câncer?

Não há relação entre essas infecções e o câncer.

 

Onde posso obter mais informações?

Sociedade Brasileira de Urologia

Uro online

Adaptado e traduzido de

http://www.urologyhealth.org/urology/index.cfm?article=114